E ae nação hacker! Tudo “em riba”? Quantos de vocês já se sujeitaram a algum tipo de prostituição criativa? Pesado o termo né… Bom, vamos aos meus 20 centavos sobre o tema.

Vamos lá, qual a média de idade de vocês? 20 aos 40? (isso é um range bem alto, mas é melhor do que de 0 a 120 anos, concordam?) Nessa faixa de idade, (se espera pelo menos, e não, eu não concordo com isso) que você possua algum tipo de conhecimento específico… não estou dizendo que você tem que ter uma faculdade ou um técnico ou mesmo que tenha que ter concluído seu ensino médio aos 20 anos de idade, não é isso, mas, a essa altura do campeonato, você provavelmente possui algo que gosta de fazer e faz relativamente bem… E você pagou um preço por esse conhecimento, não pagou?

Clássico sobrinho cabeça de miojo do seu quincas da mercearia.

Clássico sobrinho cabeça de miojo do seu quincas da mercearia.

Vamos assumir, para fins de discussão que você tenha 25 anos de idade, ¼ de século vivídos da forma que achou melhor, e, nesse meio tempo, você começou a aprender a tocar bateria por exemplo, digamos que foi com 12 anos de idade… Durante os 13 anos subsequentes você praticou, juntou uma grana, crompou sua bateria, seus pratos, um a um, suados, aquele set de baquetas espertas, e nesse meio tempo se juntou com uma turma bacana e formaram uma banda… Sonho da garotada, e essa banda começou a crescer e vocês começaram a tocar de graça por ai… e de repente começaram a vir os shows com cachês, e agora vocês estão ai cobrando seus 700 reais por noite pra 5 membros na banda… mal paga a gasolina e o consumo mas não dá pra reclamar… afinal, todos temos que começar por baixo, não é mesmo? Meu questionamento aqui hoje é: Por que diabos temos que começar por baixo?

Existe uma grande diferença (na MINHA opinião) entre começar a exercer uma função / prestar um serviço, tendo uma base de conhecimento e começar na tentativa e erro. E a diferença está justamente no tempo e nos recursos investidos.

Mudando o exemplo alí do baterista para um mais perto da minha realidade, existe um oceano de diferença entre um programador ruim, um medíocre e um bom. E infelizmente, o mercado se inflaciona cada dia mais de programadores ruins e o próprio mercado pede cada vez mais por eles. Hoje o mercado (não quero generalizar, mas infelizmente as empresas atrás de profissionais sérios são exceção e não regra) procura profissionais que façam o trabalho rápido por um preço ridiculamente baixo. Quantos dos meus colegas de profissão podem levantar a mão e dizer que NUNCA receberam uma proposta de job pra um “sisteminha”, um “sitezinho fácil”, um “trabalhinho rápido pra alguém como você” e a oferta pra ser pregado na cruz ser bem menos do que as 30 moedas de prata que Judas ganhou? Quantos outros podem levantar a mão e dizer que, após cair no conto do “vou fazer porque é amigo do meu pai/tio/mãe/prima/avó/papagaio/cachorro/cutia/pavão” e viu que o “sisteminha” era uma aplicação elástica com banco não relacional, integrações bizonhas, relatórios mega complexos e um .gif dourado com glitter girando no topo esquerdo da barra de navegação?

Programador segundo a desciclopedia.

Deixando de lado o complexo do sobrinho é claro.

Eu lembro de um cara que veio pedir um orçamento pra um sistema de PDV para o mercado dele aqui na cidade… ele não queria pagar o custo dos sistemas que as outras lojas utilizavam e queria algo mais personalizado. Ele veio, fez todo o briefing comigo e eu dei o orçamento, lembrando que eu não desenvolvo sozinho, eu tenho sempre pelo menos mais um comigo em cada projeto, então pra bolar um orçamento são várias reuniões com a equipe pra definir prazos, custos, lucros, margens de erro e outras coisas… Após passar o orçamento que chamaremos aqui carinhosamente de X e o prazo de entrega que catitamente receberá o jubiloso apelido de Y, o dono do mercado olha pra mim e fala: O primo da minha mulher faz em duas semanas por 10% disso!

E meus amigos, a verdade é que o desgraçado do primo da mulher dele faz… faz sozinho, em duas semanas (eu havia pedido um prazo máximo de entrega da primeira versão pra 3 meses) por 10% do valor…

Agora, eu posso atestar a qualidade do garoto? Quais os métodos escusos ele vai usar pra esconder o lixo que fizer? Posso garantir que o garoto vai dar suporte ao sistema depois de pronto? Aliás, dá pra garantir que o garoto vai terminar o sistema?

Claro, esse garoto lammer que vive de Ctrl C e Ctrl V pode ser o próximo Steve Jobs (se for um lammer é capaz de virar mesmo… eita “gênio” de merda que as pessoas insistem em exaltar…), mas a grande probabilidade desse garoto pegar as migalhas que aquela pessoa querendo o “negócio da china” deu a ele e sumir são bem altas…

Meu ponto aqui é: você que investiu seu tempo em aprender algo e aplicar esse conhecimento em alguma coisa, tem TODO o direito de cobrar aquilo que acha justo. O mercado te força a fazer o contrário, e em uma sociedade ideal você poderia simplesmente ligar o F%#$-@! pra isso, e eu sei que muitas vezes temos que engolir esses sapos pra poder pagar as contas do mês. Mas eu quero dizer a você meu nobre amigo e minha nobre amiga que se veem obrigados a prostituir seus suados conhecimentos em troca de migalhas, que vocês podem sim se sentir chateados com isso e buscar alternativas.

Se eu fizer um orçamento de uma prestação de serviço, consultoria, implementação, desenvolvimento ou qualquer coisa pra você, tenha certeza que, para chegar nesse ponto eu me sinto seguro dos meus conhecimentos a ponto de documentar o que eu vou fazer, quanto estou cobrando e quanto tempo demoro para fazer. Dessa forma eu que estou prestando o serviço e você que está pagando por ele ficamos seguros em nossas pontas da negociação. Isso o complexo do primo não nos dá. E por esse tipo de coisa vale a pena brigar. Só você pode dar valor ao seu trabalho, mais ninguém.

Agora, meus nobres amigos, se vocês ainda assim decidirem por prostituir esse tempo todo investido, bom, não posso fazer nada além de lamentar pelo mercado estar cada vez mais engolindo a todos nós, tirando nossa satisfação em trabalhar e colocando migalhas sem sal nas nossas bocas.

E sim, eu ando pegando uns freelas bacaninhas que andam pagando justo pelo meu tempo 😀 #fikdik.

Bom, acho que esses 20 centavos já se estenderam demais… Esse é o texto que marca o início dos #30JunTexts2016, não se assustem com a falta de coerência do texto, estou voltando a ativa agora, demora um tempinho pra engatar.

Fiquem na paz e até a próxima!

Fui!

O trabalho Prostituição criativa e o melô do complexo do sobrinho de Thiago Faria Mendonça está licenciado com uma Licença Creative Commons — Atribuição 4.0 Internacional.

1 de junho de 2016Thiago Mendonça #30JunTexts2016

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Um comentário sobre “Prostituição criativa e o melô do complexo do sobrinho”

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